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Apresentação

 

No Brasil, assim como em outros países das Américas, as minorias étnicas viveram importantes processos de luta política que levaram os Estados Nacionais ao reconhecimento de direitos relacionados à preservação de suas culturas. Como conseqüência deste fato, nos últimos anos consolidou-se uma mudança profunda no campo da educação escolar. Essa mudança é respaldada por uma legislação que permite aos indígenas desenvolverem propostas educacionais que valorizem suas línguas, suas práticas culturais e seus lugares de pertencimento étnico, ao mesmo tempo em que lhes abrem as portas para novas formas de inserção na sociedade não-indígena brasileira com ênfase em uma cidadania que respeite e integre as diferenças, o “outro”. É nessa direção que vem sendo discutida a proposta da Licenciatura Intercultural em Goiás, uma proposta que se apresenta como um espaço político e de debate de questões relevantes para as comunidades indígenas.

O Curso de Licenciatura será destinado aos povos indígenas que se situam na região Araguaia-Tocantins. Juntos, esses povos poderão definir ações de defesa de seus direitos, adotar políticas de manutenção de suas línguas e culturas maternas, de suas terras e traçarem políticas de desenvolvimento sustentável.

Vivem em Goiás três povos indígenas, os Karajá, os Tapuio e os Avá-Canoeiro, que totalizam uma população de cerca de 430 indivíduos. Esses povos mantêm relações de parentesco e de intercâmbio cultural com indígenas de outros estados. Os Karajá (de Goiás, Tocantins e do Mato Grosso) participam, há quase dez anos, do Projeto de Educação e Cultura Indígena Maurehi, que tem por meta a revitalização de sua língua e cultura maternas. Estão também envolvidos nesse projeto, na categoria de convidados, representantes dos Xerente-TO e dos Krikati-MA, dos Apinajé-TO e dos Krahô-TO, que vivem experiências de troca de conhecimentos e de reflexão sobre a realidade do cotidiano.

Os Avá-Canoeiro também mantêm relações com os indígenas do Tocantins, sobretudo com seus parentes Avá-Canoeiro, habitantes da Ilha do Bananal-TO.  Estes, por sua vez, com os Javaé.  Os Tapuios, como eles mesmos se autodenominam, são formados por famílias de ascendência Karajá, Javaé, Xavante, Kayapó e Xerente, com quais mantém vínculos históricos importantes para a composição de sua identidade étnica.

O direito de fortalecimento da identidade indígena reconhecido pela Constituição de 1988 trouxe conquistas significativas em relação à política lingüística e à cultura.  Essa política rompeu com a anterior, que visava à integração gradativa e “harmônica” dos índios à sociedade não-indígena. Na prática, a implantação das novas conquistas exige definição de medidas claras. No campo da educação, por exemplo, apresenta-se como fundamental a formação dos professores indígenas, visto que, uma vez capacitados, poderão ajudar suas comunidades a traçar seus destinos e se libertar, de verdade, da política de dominação cultural.

Uma outra justificava para a inclusão dos índios da região Araguaia-Tocantins em um mesmo projeto é que esses povos apresentam, de modo geral, uma história de contato bem semelhante com a sociedade não-indígena e enfrentam no cotidiano, praticamente, os mesmos conflitos. Além disso, a grande maioria dos indígenas que vivem nessa região pertence ao tronco lingüístico Macro-Jê, com exceção dos Avá-Canoeiro e dos Tapirapé.  Estes últimos vivem em contato com os Karajá há séculos. Os Tentehar, outro povo indígena contemplado neste projeto, vivem no Maranhão próximo dos Timbiras. Os Avá-Canoeiro, os Tapirapé e os Tentehar  pertencem ao Tronco Tupi e à família Tupi-Guarani.

Essas observações preliminares são importantes para o desenvolvimento de projetos educacionais baseados nos princípios da pluralidade cultural e no respeito à diferença. Conhecer as semelhanças, as diferenças e as relações entre esses povos, que se dão, na maioria das vezes, por meio de trocas, de casamentos, da defesa de direitos e de empréstimos lingüísticos e culturais, implica em estabelecer um diálogo entre saberes. Implica também em reconhecer a organização social, a língua, os processos de educação, a mitologia, a classificação do mundo e da natureza, aspectos ainda pouco estudados.

Os povos falantes de línguas Macro-Jê vivem na região compreendida entre os rios Araguaia e Tocantins e adjacências. A referida área já foi palco de inúmeros conflitos entre índios e não-índios, mas também de troca e aprendizagem entre os indígenas. Na parte compreendida a leste do rio Tocantins, no sul do Maranhão, e norte do Estado do Tocantins vivem os Timbiras.  Próximo a esse, estão os Apinajé, também conhecidos como Timbiras Ocidentais, que vivem no interior da ponta formada pela confluência do Tocantins com o Araguaia, região hoje muitas vezes referida como “Bico do Papagaio”. Todas as sociedades timbiras falam línguas semelhantes, podendo, portanto, se comunicar sem nenhum problema. São línguas da família Jê e do tronco Macro-Jê.
 
Os Krahô mantêm com os Apinajé relações de longo tempo. Os Apinajé se casam em aldeias Krahô e vice-versa. Em tempos mais recentes, quando ocorreu a questão da invasão e demarcação das terras Apinajé, tantos os Krahô como seus vizinhos mais meridionais, os Xerente, acorreram, enviando homens para aumentar o contingente de defensores dos Apinajé. As relações amistosas entre os Krahô e os Xerente, que não são timbiras, mas Akwē, devem ter-se iniciado quando Frei Rafael de Taggia criou missões próximas, para uns e outros no rio do Sono e no Piabanha, afluentes do Tocantins. Na primeira metade do século XX, um grupo de Xerente, devido a dissensões internas, refugiou-se entre os Krahô, onde se casaram e tiveram descendentes.

Os Karajá, e também os Javaé, embora não sejam Jê, pertencem ao tronco Macro-Jê. Esses indígenas vivem não somente na ilha do Bananal, mas próxima dela, às margens do Araguaia. No passado, esses indígenas foram importantes como remadores no transporte fluvial, tal como os Apinajé, mais ao norte. Entretanto, estes últimos acabaram por se afastar do Araguaia e da vida fluvial, o que não aconteceu com os Karajá.  Estes mantiveram com os Xerente relações de troca e aprendizado. Todos esses povos mantêm relações históricas com Goiânia, que se tem constituído, ao longo dos anos, em um espaço de encontro desses indígenas, que procuram essa capital, ora buscando tratamento de saúde na Casa de Saúde, outrora mantida pela FUNAI, hoje pela Fundação Nacional de Saúde – FUNASA, ora comercializando artesanato, se beneficiando de pesquisas das universidades, realizando exposições, palestras, etc. Os Krahô, por exemplo, têm uma associação com sede em Goiânia. Os Karajá de qualquer região sempre mantiveram uma relação muito grande com essa capital.